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Este não é um artigo para falar da rica e vasta obra literária de Santa Teresa de Jesus. Sobre isso encontrarão material pela internet e com pessoas muito mais aptas a tratarem sobre o assunto, uma vez que muitos vivem apenas para estudar sobre esta grande santa. Desejo aqui apenas ressaltar alguns aspectos sobre ela que julgo pertinentes refletirmos em nossos tempos, em três palavras-chaves: a oração, o empoderamento e um convite a reforma. A reforma interior para que assim se possa reformar o que precisa ser mudado em nossa volta. E como não sou uma expert em Santa Teresa, mas uma humilde mulher que recém descobriu os passos desta carmelita descalça, valho-me de três condições que me são particulares: a condição de ser mulher, a condição de ser comunicóloga e a condição de ser participante da Corrente de Graça.

Santa Teresa foi uma mulher ex-tra-or-di-ná-ria e muito à frente de seu tempo! Mística e doutora da Igreja, sua contribuição teológica foi a maternidade espiritual. Sendo grande mestra na arte de ensinar a vida de oração. Não por outro motivo, recebeu a honra de ter sido uma das quatro doutoras da Igreja, entre os 36 santos doutores que existem. Foi a primeira mulher a receber este título, inclusive, no ano de 1970. E explicar este divisor de águas entre os doutores na Igreja e a importância de Santa Teresa, só é possível entendendo em que contexto da História e de vida surge a nossa grande Teresa. E com isso, te convido a entrar em nossa história e pensar em você, na mulher que és em teu tempo.

Teresa de Ahumada nasceu em Ávila, Espanha, em 1515. Filha de judeus convertidos ao catolicismo, ela foi a terceira dos dez filhos que seus pais tiveram. Cresceu em uma sociedade de analfabetos e onde, sobretudo, a mulher não tinha acesso aos estudos. Seus pais, porém, muito piedosos, desde cedo a incentivaram à leitura e à escrita, o que somado ao fato de ter sido fisicamente beneficiada e por possuir grandes habilidades sociais, fez de Teresa uma mulher muito encantadora. Foi uma jovem muito atenta ao mundo em seu tempo, haja vista ter sido uma mulher letrada e possuía inicialmente o desejo inicial de casar e constituir uma família. Contudo, preferiu a vida no Carmelo ao matrimônio, a despeito do que poderia ter sido uma boa opção, para a época.

A santa, porém, não entrou no Carmelo já com arroubos de êxtases espirituais. Sua conversão – sim, Teresa de Jesus se converteu muito depois de ter entrado no Carmelo e aos 40 anos – se deu após um momento de oração diante de uma imagem de Ecce homo, a imagem de Cristo flagelado. Seu coração, enfim, se rendeu ao Grande Homem de sua vida, seu Grande Amigo e Grande Amor. Irremediavelmente.

Ah, Santa Teresa! Que mulher inspiradora! Letrada, inteligente e de grande vida de oração, nem a santa inquisição pode detê-la. Sua obra é de grande relevância para a literatura espanhola. Em suas obras estão: crônicas, livros e poesias. Seus livros chegaram a entrar no Índice de livros proibidos pela Inquisição. Claro, mulher, mística e letrada, era sem dúvida um perigo para o tempo. E precisava ser, afinal, sua missão não era uma missão fácil e requereria dela uma determinada determinação,aliada a uma grande docilidade ao Espírito Santo e inteligência. Ela foi sem dúvida uma mulher empoderada e no sentido mais estrito da palavra.

Aliás, o que pouco se fala é que o termo hoje utilizado por movimentos sociais - onde se destaca o feminismo - que lutam pela aquisição de um poder que passa pela vivência de uma reflexão sobre a ação, sobre a tomada de consciência no que diz respeito a vários fatores como política, economia e cultura, que formam a realidade e incidem sobre o sujeito, nasceu da reforma protestante. A ideia do Empowerment, termo que remete a emancipação social dos sujeitos propagada pós-Paulo Freire, não é um termo novo e veio dos luteranos que, com a Reforma Protestante, esperavam traduzir a Bíblia para outros idiomas, sem ser o latim e dar aos cristãos a possibilidade da livre interpretação. Assim, eles acreditavam que poderiam dar aos sujeitos mais autonomia. E onde está Santa Teresa nisso? Em pleno olho do furacão, em uma Europa sendo descatolizada pela Reforma Protestante, com países inteiros renunciando à fé católica – Alemanha, Inglaterra, França e com o estopim: o descobrimento das Américas. Teresa também desejava mudar o que via de incoerente na sociedade e que se refletia na Igreja. Mas no lugar da divisão, preferiu a soma e multiplicação.

Escrever, orar e fundar mosteiros. Santa Teresa muito consciente de seu papel e importância para a reforma dos Carmelos - e porque não dizer renovação? – que estavam se perdendo com a ambição colonial, com a política e a cultura da época. Com sua ousadia reformou a ordem carmelita, a Igreja, por assim dizer, e revolucionou a sua época, sem deixar de ser católica. E muito menos mulher. Sexo frágil, que exercia sua fortaleza pela graça da oração e docilidade ao Espírito Santo. Sem provocar cismas, mas com uma ousadia profética que a impulsionava, Santa Teresa, aos 52 anos - uma menina! -, percorreu mais de seis mil quilômetros pela Espanha e fundou 17 mosteiros em 20 anos: Medina do Campo (1567), Duruelo (1568), Malagón (1568), Valladolid (1568), Toledo (1569), Pastrana (1569), Salamanca (1570), Alba de Tormes (1571), Segóvia (1574), Beas de Segura (1575), Sevilla (1575), Caravaca (1576), Villanueva de la Jara (1580), Sória (1581), Palência (1581) e Burgos (1582). Sendo o primeiro, o convento de São José, em Ávila, em 1562, com o número profético e significativo de 13 carmelitas.

Sua prodigiosidade em fundar carmelos estava no sonho de sair do modelo de convento que encontrou: com 200 mulheres, que viviam em condições econômicas desiguais, dependendo do poder aquisitivo das famílias às quais pertenciam e vendo as menos favorecidas a míngua. O questionamento de Teresa era antes de tudo sobre a própria sociedade. Pois a Igreja não se faz de seres seráficos, mas se constrói com homens e mulheres de todos os tempos. E enfrentou, de certo, muitos desafios por assumir as consequências desta responsabilidade de dizer SIM ao desejo divino de reformar a ordem carmelita. Ela queria comunidades menores, focada na oração, no silêncio, no trabalho e na fraternidade. Lançava um olhar desafiador para a sua insignificância social de ser mulher, em uma época em que ser mulher não valia muito. Teresa foi uma mulher empoderada! Mas entendia que a autonomia dos sujeitos, naquele contexto, não estava em ruir com a Igreja, como fizeram os luteranos ou em se considerar melhor e superior aos homens, como fez o movimento feminista. Ela entendia que o poder que a movia, não vinha dela, mas do Alto. O poder de Teresa vinha do Alto. E isso é desafiador e inspirador para nós! Para todos que são considerados frágeis e marginalizados na sociedade.

Ela conseguiu tudo isso, em um mundo sem internet ou outro veículo de grandes propagações de mensagens fora a imprensa, como a Reforma Protestante teve, na época de sua eclosão. E a julgar que seus livros eram escritos por uma mulher, que não tinha o direito de ser letrada e que justamente e por isso, dificilmente seria impresso, como Teresa conseguiria? Sem movimentos que a empoderariam e a diriam que ela tinha sim um significado, como ela entenderia a sua importância naquele momento histórico? Seria miraculoso se não fosse simples. Teresa conseguiu tudo isso orando. A grande arma e segredo de Santa Teresa, longe de ser algo oculto e inacessível, é a oração. E esta foi a herança espiritual que nos deixou. A oração para Teresa era mais do que a possibilidade da transformação pessoal. Era a transformação pessoal, para transformação da sociedade. O empoderamento dela tem uma chave de acesso e é para todos!

Concluo, convidando os integrantes da Corrente de Graça e a todos que lerem esse artigo, a pedir a intercessão da Grande Teresa para que, neste Brasil tão polarizado e tão fácil de se dividir, tenhamos em nossa família, nos grupos de oração e ministérios e dentro de nós, o dom de sermos pessoas de oração e Amigos de Deus.

RCC Brasil